| Saudades de Zeca |
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Foi, pois, pela rádio que tive o meu primeiro contacto com esta música, a sua música. Baladas ao jeito de Coimbra, ainda, embora já afastadas do tradicionalismo puro e duro que então ditava as regras entre a estudantada. Mas isso, claro, eram coisas que, nessa altura, eu desconhecia porque não passava duma criança a quem a minha mãe trauteava de vez em quando os versos ouvidos nas ondas hertezianas: «O meu menino é d’oiro / é d’oiro fino / não façam caso que é pequenino…» Pelos meus pais vim a saber mais tarde que o intérprete dessa melodia suave que embalava tantos dos meus sonos se chamava José Afonso. Melhor: Dr. José Afonso, por força da estratégia comercial da editora. O título académico marcava a origem coimbrã do cantor e distinguia-o dos cançonetistas vulgares. A verdade é que, aos olhos do povo, o dê-érre marcava a diferença, muito embora o próprio não apreciasse tais reverências. E também não foi por isso que ele passou a ser mais ouvido lá em casa. Foi mesmo pela música e pelo empenhamento político, duas coisas a que a tribo familiar atribuía grande importância. Nessa altura também não sabia que eu e o Zeca tínhamos várias outras coisas em comum, a começar pela proximidade geográfica: ele nasceu em Aveiro, a escassos cinco quilómetros da terra onde vim ao mundo. E foi na cidade da ria que nos cruzámos fisicamente pela primeira vez, num encontro quase sem história (e, para ele, decerto sem memória), pouco tempo passado sobre o 25 de Abril de 74, numa altura em que Zeca ali foi para um dos muitos milhares de convívios cantigueiros desse tempo em que tudo nos parecia possível. (...) De todos os momentos e todas as histórias que partilhámos, há obviamente alguns mais inesquecíveis do que outros. Como por exemplo o dia em que fui com o Fernando Assis Pacheco visitá-lo a Azeitão, nas vésperas do concerto do Coliseu, e em que quase nos perdemos no meio de um nevoeiro sebastiânico. Ou a tarde em que me telefonou, irado, porque a campanha do candidato presidencial Mário Soares, em pleno confronto de segunda volta com Freitas do Amaral, se tinha apoderado do seu «Natal dos Simples» sem dizer água-vai. Ou o modo como ficou sensibilizado quando lhe contei do cançonetista famoso que me tinha procurado para dizer que era «um filho-da-puta igual aos outros», mas que sabia da doença do Zeca e estava disponível para contribuir mensalmente com uma prestação pecuniária regular e até nem se importaria de ajudar a organizar um espectáculo de solidariedade, mas que não queria nenhuma publicidade em volta desse assunto. De todas estas minhas memórias do Zeca se fez este livro. E, apesar de notoriamente curtas em comparação com as de muitos outros companheiros, sei que ainda fica muito por contar. Mas não posso, nem quero, deixar de recordar o quase desconhecido movimento em que nos envolvemos por ocasião do surto grevista polaco, em inícios dos anos 80, que foi o primeiro prenúncio do derrube do «socialismo real». Um episódio pouco importante e que na altura foi ignorado por quase toda a gente, mas que não deixa de ser motivo de orgulho para todos os envolvidos. Em plena «crise de Gdansk», com o sindicato Solidariedade de Lech Walesa a tornar-se o pólo de todas as atenções, houve em Portugal uma escassa meia centena de cidadãos lúcidos, de vários quadrantes políticos e sociais, para quem a razão não estava nem do lado dos apoiantes nem dos detractores da alegada «central sindical» polaca. O Zeca era um deles, e foi quem me desafiou para reunir (com o Fausto, o Carlos Loures, o Orlando Costa e mais uns quantos malandrins) em casa do Carlos Leça da Veiga para a elaboração de um documento a que chamámos «Que a lição da Polónia não seja em vão» . No texto, de modo involuntariamente premonitório, alertávamos para as consequências de um movimento popular que a esquerda desse tempo teimava em menorizar e de que a Igreja Católica e toda a direita europeia não hesitavam em apoderar-se – com resultados que poderiam ser dramáticos, como alguns anos depois veio a verificar-se, ultrapassando aliás as nossas expectativas. O «comunicado» que então elaborámos, resultado de várias horas de discussão desinteressada, seria olimpicamente ignorado tanto pelos órgãos de comunicação dos vários quadrantes como pelas organizações políticas da época, incluindo aquelas onde pontificavam muitos dos nossos amigos. Nenhum nos disse, mas suponho que todos (ou quase) nos devem ter tomado por «um grupo de maluquinhos» armados em analistas de ocasião. Que eu saiba, o papelinho apenas foi divulgado nos espectáculos d’A Barraca, e a coisa não teve mais repercussões públicas. Meia dúzia de anos depois, a queda do Muro de Berlim e todo o estardalhaço que se seguiu deram-nos razão. Mas, nessa altura, já era tarde de mais. E o Zeca já não estava cá para ver… (...) Re-ouvindo hoje o legado de José Afonso, dificilmente encontramos os chamados temas «datados». E no entanto eles existem (sobretudo nos discos da segunda metade da década de 70, muito marcados pelas lutas do período revolucionário), mas as evidências temporais das situações concretas que lhes deram origem não chegam para fazer com que, actualmente, essas músicas percam o interesse ou se nos apresentem como meros documentos testemunhais de uma época. Pelo contrário: as canções de Zeca, mesmo aquelas que reflectem e retratam determinados episódios ou momentos históricos específicos, conseguem sempre ter uma dimensão musical e poética que não se confina nunca ao seu próprio tempo. Desde «A Morte Saiu à Rua» até ao mobilizador «Coro da Primavera», todas elas foram capazes de resistir ao grande juízo do tempo e se nos apresentam hoje como obras tão ou mais modernas do que muitas produções dos nossos dias. E a prova está na quantidade de jovens músicos que continuam a ter em Zeca uma referência essencial. É tudo isto que interessa recordar, a par com a evocação de uma vida ímpar de um ser humano excepcional, política e socialmente comprometido com os mais nobres ideais, sem com isso pôr em causa a grandeza da sua arte. Porque é realmente de arte que falamos quando nos referimos a Zeca e a toda a sua escola de cantores – desde o tão frequente e injustamente ignorado Adriano Correia de Oliveira aos ainda muito activos Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco, sem esquecer o transgeracional Jorge Palma, o empenhado José Medeiros, a rigorosa Amélia Muge, o discreto Luís Cília, a voz clara de Cristina Branco ou os inovadores Luanda Cozzetti e Norton Daiello. E, afinal, todos os (muitos) músicos e cantores, oriundos das mais distintas áreas, países e gerações, que se deixaram tocar pelo seu enorme talento: de Filipa Pais à Brigada Victor Jara, António Pinho Vargas e Carlos Martins, Vitorino e Janita Salomé, Fernando Tordo e Carlos Mendes, Rui Veloso e Dulce Pontes, Vai de Roda e Gaiteiros de Lisboa, Teresa Silva Carvalho e Luís Represas, João Afonso e Carlos do Carmo, entre variadíssimos outros e para falar apenas de portugueses. Em rigor, creio que nos dias de hoje será difícil, pelo menos no universo ibérico, encontrar um criador musical, seja ele compositor ou intérprete, para quem a arte de Zeca seja indiferente. O que diz muito da capacidade inventiva de José Afonso e da modernidade da sua obra. E é também um reconhecimento implícito da abertura de ideias que marcou toda a sua obra, e que só encontra paralelo, no universo lusitano, na de outro grande mestre dos sons, Carlos Paredes. Por tudo isto, julgo que continua a fazer sentido manter a intenção que presidiu às primeiras publicações deste livro: contribuir, por pouco que seja, para que a voz de José Afonso continue a ser ouvida e as suas palavras escutadas com a atenção que merecem todas as grandes obras de arte. Ou seja: participar, tanto quanto possível, na luta contra o esquecimento, que é como se sabe um dos vícios portugueses mais comuns. Mas de que, felizmente e por enquanto, não é coisa de que o Zeca ou alguém por ele se possa queixar. |
